quinta-feira, 30 de dezembro de 2010


 O Velho
O velho agora entusiasmado sabia, não enganou-se. Fixado em sua ruína castelo de poemas, sabia desde outrora da companhia oculta , mas incerto preferiu não, já que limites lhe causavam angustia , embora saudável soube que sua bengala simbolo de sua proteção, quebrou antes que pudera cicatrizar e alterado não queria vinganças apenas proximidades com aquilo tudo que lhe aproximava do sonho mais belo, tipo um jovem Werther em seus sofrimentos. O velho poucas vezes fora entendido, mas sabia o que lhe fazia bem, podia admitir, estava tranquilo.
Ele jamais teria coragem de dizer estas palavras, pois desistiu delas, mas o encouraçado velho bebeu hoje, e embriagado se empurece de uma leveza significativa. E como um jovem escreve.
Um dia o velho escreveu uma carta de amor, linda que voava , o velho ingenuo sem endereço não teve respostas, mas isso só se ele acreditasse que o silencio não diz nada, de amor ele entendia bem, principalmente quando em cartas a comunicação era mais o silencio do que as palavras.
Este velho com propriedades raras: uma bengala, um caderno, uma bico de pena, naftalinas pra lembranças,um quadro onde havia uma mulher negra nua, uma pochete com documentos, uma maquina de escrever, um quarto de pensão quase seu de tanto tempo que morava e um bom ouvido sempre renovado. Compartilhava com as amantes o seu transbordar, o não caber em si mesmo, o que por vezes virava texto, por vezes sorrisos, que nunca foram santos, sempre maliciosos, irônicos. As amantes queriam este velho, como quem quer sugar um livro, talvez fosse esse o erro, o sugar, porque precisava que suas páginas fossem lidas por vez, uma a uma.
Ele sabia que em um invisível perceptível os condenados da terra assim como era e se via poderiam viver vivenciando, correndo menos. E ainda neste invisível sabia de um diálogo oculto, até nomeava sua sinas de escrever para o silencio de soluções pretas de amar.
Um dia o corpo do velho estava cansado julgando insignificante sua existência e preferiu conter-se, amou por dentro o que de mais novo pudesse perceber, viu em si um mundo antigo reformado, e sabia que mais cedo ou mais tarde iria entrar num ciclo de repetição e nada de novo poderia ser avistado. Temia. Sabia ele que não conseguiria, nem tão pouco poderia dizer adeus a tudo de sua juventude, necessário seria amar o futuro ele pensava, precisava de planos, perspectivas. Pois tão velho que era não acreditava que viveria muito tempo mas preocupava-se com a terra que receberia seu corpo. Que sabor ele teria para os bichos para a terra? Questionava-se sempre.
Embriagado ainda e com dor nas costas, decidiu dormir, escutou uma gargalhada e olhou pela janela do quarto de pensão e viu uma criança caminhando, a rua se estendia, a criança de corpinho novo respirava o sonho do velho e mastigava matinhos frescos que tirava do chão, mas ia sempre em frente. O velho sorriu pelos cantos da boca e antes de dormir escreveu outra carta. E transbordou-se em cima da cama em calma.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Sem palavras

Sem palavras

Não tenho escrito mais porque nem uma palavra mais me interessa,
nada de nada resta- me, ou basta-me
nem tem graça viver sem palavra também
é que pelo menos evito desnudar este velho que sou  à toa
ando sem som, sem ritmo, adjuntos, advérbios, adjetivos, verbos, substantivos, sem composições, etc...
tudo isso tem me irritado e se tornado desnecessário.
Ainda que quando vou chorar não é o olho que se move e desliza a lágrima, sim a mão que quer materializar a palavra pra  despir esse tecido incalculavel, desmedido que sou quando solitário que me enlouqueço de mim.
Tento cobrir-me
corro, protejo o que sou e tento não restringir-se
abrindo, mas  fechando-me,  oscilo constante
 sei que não devo escrever
porque nada basta
meus filhos estão com fome
minhas mães ainda não podem ser 
meus pais  estão desapontados com a queda do muro e o preço dos impostos
 meu sorriso parece mais um travessão mal colocado na frase
cada passo que dou nessa guerra parece tiroteio no chão
e se for pensar na valsa que dancei sozinha ao som dos bandolins 
nem tem graça, nem uma palavra vai dizer 
não escrevo mais por tudo isso que o sonho não cobriu, fatigado de nunca ser real, lamento não ter cantado na hora certa. Porque não sei cantar e as palavras alagavam a boca constantemente, mesmo sendo insuficientes.
Não ouço nem mais meu coração, porque calou-se de greve e parece irremediável qualquer aumento salarial, pois queria ele era ser livre
mas entendeu essa impossibilidade diante do corpo em que foi aprisionado.
O próprio coração queria revolução, reforçou-se com sangue e batimentos acelerados, pensou que podia gozar, comemorou antes da hora e foi acertado com uma bala nada perdida,  pousou desesperado. 
Agora espero que entenda porque eu esse velho cansado não quer mais escrever, sem palavras encerra o poema que era vicio e agora veneno, pois nenhuma palavra basta quando os olhos não tocam ninguém ainda que as dores sejam as mesmas, e as panelas ainda estejam vazias e nenhum de nós entenda o que temos sido e pense no que possamos ser além dos tiros.